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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.
É subitamente um grito, 
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Mar de Setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto, 
Fremente de espumas. 
Corpos ou ondas: 
iam, vinham, iam, 
dóceis, leves, só 
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem; 
despertos, amam, 
exaltam o silêncio. 
Tudo era claro, 
jovem, alado.
O mar estava perto, 
puríssimo, doirado.

Eugenio de Andrade

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O sol das areias






Também o deserto vem
do mar. Não sei em que navio,
mas foi desses lugares
que chegaram ao meu jardim
as palmeiras.
Com o sol das areias
em cada folha,
na coroa o sopro
ainda húmido das estrelas


Eugénio de Andrade

domingo, 29 de agosto de 2010

Mar, mar e mar



Mar, mar e mar
as vezes tu me perguntas
e eu também não sei o que e o mar

.Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.


Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios de espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as arei

Eugenio de Andrade


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