terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Se o mar entrar

Se o mar entrar em casa, com sas flores de som
inundar os tapetes, onde a cinza se instalou.
Com o tempo,e as minúcias do pó.
O mar já está aberto e voltado de borco!
Se o mar entrar o chão já se rompeu
pelos buracos a cor,abre-se a floresta
É um tambor de paz o dia fruto novo

Casimiro de Brito

A alma da Tempestade


Filho, marido, pai, — toda a trindade
Do seu amor — o Mar pôde perdê-los...
Noite de vendaval: escuridade,
Relâmpagos, trovões, atros novelos

De nuvens, fragor de ondas, atropelos
De ventos... E ela olhava a imensidade
Encharcadas as roupas e os cabelos,
Na praia, em pé, hirta na tempestade.

E ainda hoje ela uiva as maldições e as pragas,
Louca, gênio, de um ódio ingênuo e mau,
No concerto dos ventos e das vagas.

Misturam-se-lhe os lúgubres lamentos
Na noite negra, ao troar dos raios, ao
Quebrar das ondas, ao gemer dos ventos!

Afonso Lopes de Almeida

Viver na beira-mar

Viver na Beira-Mar
Nunca o mar foi tão ávido 
quanto a minha boca. Era eu 
quem o bebia. Quando o mar 
no horizonte desaparecia e a areia férvida 
não tinha fim sob as passadas, 
e o caos se harmonizava enfim 
com a ordem, eu 
havia convulsamente 
e tão serena bebido o mar.

Fiama Hasse Pais Brandão

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Marinha

Tu nasceste no mundo do sargaço
da gestação de búzios, nas areias.
Correm águas do mar em tuas veias,
dormem peixes de prata em teu regaço.

Descobri tua origem, teu espaço,
pelas canções marinhas que semeias.
Por isso as tuas mãos são tão alheias,
Por isso teu olhar é triste e baço.

Mas teu segredo é meu, ó, não me digas
onde é tua pousada, onde é teu porto,
e onde moram sereias tão amigas.

Quem te ouvir, ficará sem teu conforto
pois não entenderá essas cantigas
que trouxeste do fundo do mar morto.

Carlos Pena Filho


Poema extraído do livro A Vertigem Lúcida

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Fascinação



Aqui eu ficaria
o dia inteiro
 ouvindo as gaivotas
e tentenado decifrar
o mistério
dessas águas
que desde o mais remoto tempo
nos atrai e fascina


£una

Se eu tiver que me perder....que seja no mar

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Deslumbramento


Passeia à beira-mar e tem a graça
da clara luz do dia que amanhece
e à sua volta o ar até parece
ganhar outra leveza quando passa.

Um bando de gaivotas esvoaça
em seu redor e como numa prece
eis que a seus pés a espuma se enternece
com o desenho que na areia traça.

Aproxima-se a gente e, ao tentar
perceber o mistério da visão,
logo vê que o segredo a desvendar

é apenas mais um desses que o mar
esconde ou revela na ocasião,
conforme quem lhe interessa deslumbrar.

Torquato da Luz