sábado, 25 de setembro de 2010

O Mar...


De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.


Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Luar


LUAR'

FACE do muro tão plana,
com o sabugueiro florido.
O luar parece que abana
as ramagens na parede.
A noite tôda é um zumbido
e um florir de vagalumes.
A boca morre de sêde
junto à frescura dos galhos.
Andam nascendo os perfumes
na sêda crespa dos cravos.
Brota o sono dos canteiros
como o cristal dos orvalhos.

Cecília Meireles

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Ó noite...


Ó noite, flor acesa, quem te colhe?
Sou eu que em ti me deixo anoitecer,
Ou o gesto preciso que te escolhe
Na flor dum outro ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Praia




Praia 


Nuvem, caravela branca
No ar azul do meio-dia:
- quem te viu como eu te via?

Rolaram trovões escuros
Pela vertente dos montes.
Tremeram súbitas fontes.

Depois, ficou tudo triste
Como o nome dos defuntos:
Mar e céu morreram juntos.

Vinha o vento do mar alto
E levantava as areias,
Sem ver como estavam cheias

De tanta coisa esquecida, 
Pisada por tantos passos,
Quebradas em tantos pedaços!

Por onde ficou teu corpo,
- ilusão de claridade -
quando se fez tempestade?

Nuvem, caravela branca,
Nunca mais há meio-dia?

(já nem sei como te via!)

Cecília Meireles

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O Rei do Mar


O Rei do Mar

Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular:
Vimos as Plêiades.Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas.Muitos remos.
Curta Vida. Longo mar.

Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só contamos para o mar...

Nem tormenta nem tormento 
nos poderia parar.
[Muitas velas.Muitos remos.
Âncora é outro falar...]
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.

Cecília Meireles 

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Água azul

Água Azul

Altos segredos escondem dentro de água
O reverso da carne, corpo ainda.
Como um punho fechado ou um bastão,
Abro o líquido azul, a espuma branca,
E por fundos de areia e madrepérola,
Desço o véu sobre os olhos assombrados.

( Na medida do gesto, a largueza do mar
E a concha do suspiro que se enrola.)

Vem a onda de longe, e foi um espasmo,
Vem o salto na pedra, outro grito:
Depois a água azul desvenda as milhas,
Enquanto um longe, e longo, e branco peixe
Desce ao fundo do mar onde nascem as ilhas.

José Saramago


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Mar de Setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto, 
Fremente de espumas. 
Corpos ou ondas: 
iam, vinham, iam, 
dóceis, leves, só 
alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem; 
despertos, amam, 
exaltam o silêncio. 
Tudo era claro, 
jovem, alado.
O mar estava perto, 
puríssimo, doirado.

Eugenio de Andrade